e que os deuses dos tabuleiros anotem: mérito tem sabor!” …


“Ave Renan! Rio Grande do Sul tem um novo imperador…”

Mas fiquemos com o convívio junto a um super-humano de divisas brilhantes e cintilantes nas ombreiras, semblante sério, sisudo e de poucos risos. Renan Sigarini, discretamente, não usou atalhos. Como bom militar, valeu-se das estratégias. Jamais ousou se queimar no mingau quente. Soube esperar. Teve paciência. Foi cauteloso. Decidiu comer pelas beiradas. Sua hora chegaria.

Ao longe, três metas: a mesa 1, aquele enorme troféu de campeão e a majestosa arena — outrora, chamemo-la de mesa 1 — onde apenas os mestres têm direito de jogar.

Renan avançava pelas rodadas com paciência de monge e astúcia de general. Cada jogada era medida, cada lance calculado. Um exército de um homem só, enfrentando o caos das peças e a pressão de todos os olhares.

Ao se aproximar da mesa 1, o gigante troféu de campeão parecia cintilar como ouro antigo, e o ar carregado de expectativa quase podia ser cortado com uma faca. Renan respirou fundo, ajeitou as peças, e cada movimento seu tornou-se uma pequena batalha, cada xeque, um golpe de mestre. O salão inteiro prendia a respiração, enquanto o homem legião conduzia seu avanço com precisão militar e serenidade de sábio.

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O palco por onde nosso imperador desfilou seu talento, comandando seu exército, foi o salão de festas (Sala VIP) da patrocinadora Associação Atlética do Banco do Brasil de São Leopoldo (AABB) — palco da 1ª Copa da República de Xadrez, realizada neste feriado, 15 de novembro de 2025. Foi uma verdadeira maratona de nove rodadas no ritmo de 10 minutos com 5 segundos de bônus por lance ou 15 minutos no relógio analógico.

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…E o que pensar do velho delegado que jogou a partida da sua vida octogenária? Aragão — não o Jorge, cantor de pagode e sambista, mas o José Luiz, o intrépido delegado de polícia aposentado — dançou como um guri e derrotou seu oponente.

Ah, e não posso ignorar que esse dito-cujo era postulante ao título até poucas rodadas atrás, quando dominava as ações, derrubando quem ousasse se sentar diante dele na mesa 1. João Carlos Orguim já fora inquilino desta mesa… ah, isso nas rodadas iniciais.

E, falando nisso, sempre é bom lembrar que todo o sonho do virtual campeão começou a desmoronar no exato momento em que, do outro lado do tabuleiro, se apresentou o discreto e competente Raycone Taketa. Ali, naquela mesa, o castelo de confiança ruiu peça por peça. O resto… bem, o desfecho todos sabemos.

Voltando ao nosso ultra-humano, ele ficou mais faceiro do que pinto no cisco. Com uma dama e um bispo, aplicou xeque-mate no gigante João Carlos Orguim, que, com apenas um rei fugidio no tabuleiro limpo, ainda tentou arrancar um empate afogando o próprio monarca moribundo. Mas, convenhamos, o delegado já prendeu e algemou militante muito pior do que esse — não seria o Orguim que ia lhe causar estrago.

Final: xeque-mate com o chamado beijo mortal.

O salão explodiu em aplausos, alguns incrédulos, outros reverentes. Até os mais experientes não podiam imaginar que, entre as mesas e tabuleiros, um exército de um homem só tivesse realizado tal façanha.

Ninguém poderia imaginar — nem em mil anos — que um octogenário, depois de sete rodadas, agora na mesa 4 e entrando na oitava, ainda teria forças para segurar o gigante Golias. E não é que o David de 80 anos, pura pele e osso, conseguiu essa façanha de proporções bíblicas?

Aragão, que era mero coadjuvante, se vencesse a última partida conquistaria o vice-campeonato e, por conseguinte, o segundo super troféu. Mas acontece que seu adversário na nona rodada era ninguém menos que o candidato a mestre Raycon Taketa. O kissuco do velhinho acabou, e com a derrota terminou em quinto lugar… uma classificação extremamente meritória para um jogador que muitos viam como uma rolha de vinho envelhecido!

PREMIAÇÃO