Slide2 ATÉ SANT’ANA DO LIVRAMENTO, para jogarem a 1ª Copa Internacional  Cônsul Alfredo Sanchez (na foto  com copo de Whisky)

* os nomes são fictícios para preservar a identidade destes dois personagens.

p.s. toda a história que será narrada trata-se de pura realidade. Qualquer semelhança entre os fatos ocorridos e os descritos abaixo  será pura casualidade!

O coração de JUREMIR SOUZA parecia querer sair do peito – tamanha era a sua ansiedade para chegar logo ao seu destino – ele partira de Passo Fundo e pretendia desembarcar em Santana do Livramento para jogar um torneio de xadrez onde estariam reunidas nada menos do que três bandeiras e muitos jogadores do exterior. João Pedro Fabris, seu parceiro de viagem com sua tradicional calma, a mesma que o conduzira à presidência do clube de xadrez de sua cidade – perdeu as contas de quantas vezes viu Emir desarrumar a vasta cabeleira e voltar a amarrar em forma de rabo de cavalo. Se este animal que conferiu o nome a este tosco penteado estivesse no ônibus – com certeza ficaria incomodado pela comparação e quem sabe, porque não, até excitado pelas tantas e incansáveis vezes que era acariciado.

A jornada seria longa. Desde Passo Fundo, norte do RS até o extremo sul do Rio Grande é uma viagem e tanto – ainda mais que não existe ligação direta via-ônibus intermunicipal. Deveriam fazer baldeações e a mais conveniente, menos onerosa e mais curta seria embarcar para Santa Maria e de lá tentar uma viagem para Santana do Livramento. A primeira etapa do plano foi cumprida com êxito – a dupla chegou à rodoviária de Santa Maria às seis horas da madrugada e logo correu até o guichê para comprar as passagens. "- Senhorita, bom dia, somos de Passo Fundo e desejamos ir para Santana do Livramento, têm passagem e que horas sai?" perguntou FEDERICO GOMES com seu inconfundível sotaque de "índio passofundense".

“A moça que trajava um bleiser azul escuro com filetes dourados cobrindo uma camisa branca e cabelos longos – fitou seus olhos amendoados em forma oriental escondido atrás de uns óculos fundos de garrafa em FEDERICO, e respondeu: – “Parte um agora as sete, só que não tem mais” lugar… vocês querem ir de pé ou esperar o das nove?" Antes que FEDERICO GOMES pensasse em responder -JUREMIR saltou e se antecipou ao amigo,…"não, não, veja duas passagens que vamos em pé mesmo!" Assim embarcaram na hora determinada e pacientemente se amontoaram dentre os demais no corredor do ônibus.

Gente simples. A maioria dos passageiros eram trabalhadores rurais – pessoas humildes – umas com camisas xadrez, outras com volta ao mundo e algumas escassas vestindo roupa de melhor qualidade, o que no caso se referia a eles. Tinha até um que levava um porquinho com uma corda atada no pescoço – outro tinha uma caixa com duas galinhas carijós e ao lado da poltrona de número 12 um menino carregava uma cabrita. Eles até pensaram em achar graça, mas logo abandonaram esta ideia porque, àquela altura dos acontecimentos seria inconveniente e uma indelicadeza agir daquela forma. Porém o pior de tudo era o fato de que estes ônibus modernos não abrem as janelas – deixando para o ar condicionado a tarefa de refrescar o ambiente. Mas isso não é o suficiente e os amigos sentiram, pela primeira vez na vida, o quanto duro é a vida de um colono. O ônibus levou cinco horas para percorrer 300 e poucos quilômetros, o que pareceu uma vida para eles que estavam quase sufocados e cansados de ficarem em pé. "FEDERICO, tenho sede e estou com ânsia de vômito" – disse JS ao parceiro que já esteve certa feita em Santana do Livramento. "Calma falta pouco, está vendo este cerro aqui – é o Cerro Palomas, o símbolo da cidade e falta só 20 quilômetros, aguenta mais um pouco…" disse João Pedro. Meio que contrariado Emir não tinha alternativa. Até que se lembrou de ter comprado na lancheria da rodoviária de Santa Maria uma barra de chocolate com nozes e resolveu enganar o estomago, pois seu amigo o convencera que o enjoo poderia ser fome.

Esta, porém, foi a pior decisão que JS poderia ter tomado – resolver comer aquele chocolate de 200 gramas. Estava delicioso, pois acima de tudo para saciar a sede que provocaria ainda seu amigo tinha a sobra de um refrigerante à base de cola – imitando a marca mundialmente famosa. Como o chocolate estava meio mole devido ao calor – ele estava no bolso de trás de sua calça, não tardou para que ele recorresse ao refri do parceiro. Este também estava que era só xarope, sem gás e quente. Não deu a menor importância – pensou … "se não mata engorda" e meteu tudo goela abaixo. Caiu como uma bomba – invés de aumentar o enjoo as consequências foram piores. Teria sido melhor vomitar do que sujar as calças. Felizmente o ônibus tinha banheiro e até razoável. Àquela altura dos acontecimentos ninguém notaria as consequências de seu ato, não esqueçamos que próximo do banco 49 o passageiro levava um porco e este ajudaria a ocultar o odor, além das galinhas e da cabrita. A pior parte ficou com João Pedro que teve a árdua tarefa de conseguir papel higiênico para ele. Com Emir devidamente acomodado como um rei – buscou ajuda no motorista. Só que este não tinha o que ele desejava e o cobrador muito menos; ofereceu algumas folhas do bloco de notas, mas foi recusado. Ainda pediu para alguns passageiros, mas nada.

FINALMENTE ELE CONSEGUIU LUGAR PARA SENTAR …que alívio!!!!

Calculemos que o ônibus, entre paradas e desacelerações tenha levado uns 40 minutos para cobrir a distância dos 20 quilômetros – este foi o tempo que JUREMIR curtiu a viagem sentado. Com os cotovelos apoiados nos joelhos, mas aliviado foi informado que deveria permanecer ali até que chegassem à rodoviária para que João comprasse um rolo de papel higiênico. Pena que ninguém tinha uma câmera fotográfica para registrar este épico momento  – nosso herói  sentado na privada olhando pela janela como se nada estivesse acontecendo. Finalmente chegaram e FEDERICO pôde executar sua tarefa. Foi fácil – o difícil foi alcançar a encomenda ao "rei", pois o porco quer ocultava o crime fora embora. A esta altura a vergonha já tinha dado lugar à curiosidade de estar na terra onde apenas marcos invisíveis dividem dois países. Tudo aquilo que ouvira contar era verdade, seu sonho se realizara. Sentiu vontade de imitar o Papa João Paulo II e beijar o solo da rodoviária. Fez menção para tal, mas não teve coragem – deixa para lá. Convidou o amigo a entrar em contato com o presidente do Bobby Fischer Xadrez Clube para comunicar a chegada deles e pedir que viesse busca-los.

Não demorou muito pra que o jornalista Pedro Nicola acompanhado do cônsul Alfredo Sánchez na rodoviária chegassem. Só que havia muita gente neste horário de meio-dia entre ônibus que chegam e outros que partem e alguns minutos demoraram até que o encontro fosse efetivado. O relógio marcava 12h22min quando aquele sujeito de barba tipo profeta e longos cabelos surgiu das sombras estampando um vasto sorriso. Era JUREMIR, presidente da Liga Regional de Xadrez que anunciava sua presença em terras fronteiriças. Acompanhado pelo não menos famoso FEDERICO GOMES, presidente do Clube do distrito de Pulador os três se abraçaram e foram para a casa de Nicola a fim de conversarem e saborearem um gostoso almoço regado a vinho e refrigerante para os abstêmios. Arroz branco, panquecas recheadas, salada de maionese e tomate com alface foi o cardápio. Nada de especial, mas como a fome era grande o oferecimento parecera um verdadeiro banquete. Não fizeram cerimônia e comeram até lamber os dedos. Mas a longa e desgastante viagem repleta de percalços os esgotara – muito mais agravada pelo vinho que lhes deu sono. Foram conduzidos ao hotel onde, após um reconfortante banho morno, a dupla dormiu o restante da tarde e quase chegou atrasado ao torneio que iniciava às sete horas.

Refeitos da aventura e com as malas a tiracolo, já que souberam das previsões de encerramento do torneio de xadrez e da saída do ônibus para Santa Maria que desta vez iriam confortavelmente sentados nas poltronas 21 e 22, prontamente decidiram que não seria prudente retornar ao hotel após o término do evento, uma vez que embarcariam às 06h00min e o torneio às 05h30min – a dupla chegou ao Bobby Fischer com uma hora de atraso. Nada de mais grave. Após uma concorrida cerimônia de abertura o torneio teve início e transcorreu normalmente. Enquanto Fabris na mesa nove comandando as peças brancas teve a sorte de enfrentar um dos mais fracos da competição, na mesa número 8, de negras – Emir tinha uma carne de pescoço pela frente. Ambos uruguaios. Ainda não ambientado João Pedro suou sangue para derrotar o pobre Lito – ao passo que Caldeira não tinha a vida fácil; ele fora sumariamente derrotado por Ricardo Araújo. Veja como são as coisas no xadrez – na rodada seguinte, João Fabris que tivera de usar de toda a astúcia para vencer um fraco e humilde jogador uruguaio, desta vez tinha pela frente o grande Dirley Belo, considerado um dos fenômenos da fronteira. Como perdera, Emir teve que se contentar em jogar na mesa sete contra o representante da Associação de Judô da cidade. Partida fácil, xeque-mate em pouco mais de dez lances. Pensou ele – "ganhei esta e vou olhar a partida do FEDERICO, que está na mesa três, com certeza vai ser massacrado!" Não é que o grande Belo perdeu a batalha entre Davi e Golias.

O evento prosseguiu até às 23 horas quando teve uma pausa para o jantar oferecido pelos patrocinadores. Nada de muito requintado, apenas um arroz com linguiça, uma feijoada bem traquejada e muito vinho. Porém o bastante para contentar argentinos, uruguaios e brasileiros. Só que o chá de boldo que Emir tomara após o almoço não lhe conferira muita tranquilidade e ele voltou a falar com o Wanderlei Cardoso, um velho amigo que, acredite, desde a viagem eles descobriram uma afinidade incomum, do tipo ‘senta do meu colo que eu alivio tuas inseguranças e ansiedades; mas pelo jeito este último contato não surtiu muito efeito positivo, aliás, nesta mesma noite não foram poucas as vezes que JUREMIR SOUZA recorreu a ele – e, em uma destas oportunidades, quase perdeu uma partida pois teve que sair correndo para o banheiro com o jogo em andamento, tendo efetuado seu lance à distancia, quando por detrás se ouviu aquela voz abafada pela porta “…e4, vai, comecem, disparem meu relógio, meu lance é e4… logo sairei daqui!”. Daí em diante o torneio prosseguiu normalmente com muitas alternâncias da segunda colocação para baixo – porque na ponteira estava o Mestre Nacional Uruguaio José Riverol que não aliviava para ninguém.

Foi um acontecimento literalmente para boêmios – uma vez que o sol apontava no horizonte e os enxadristas não estavam nem aí, pois concentrados e inspirados pelo vinho Almadén, freneticamente efetuavam seus lances. Até que na mesa um, a mais cobiçada e o sonho de todo jogador – o Mestre Nacional José Riverol anunciou "Xeque-Mate!" dando por encerrado a Copa Alfredo Sánchez de Xadrez, iniciada que foi às 19 horas de sábado, dia 1º de agosto de 2004, nas dependências do Bobby Fischer Xadrez Clube e que encerrou nas primeiras horas da madrugada de domingo, às 05h47min.

O evento foi disputado pelo inovador sistema de pontos ganhos sendo descartados os empates – o que valorizou os confrontos e deixou a competição mais nervosa. Como se sabe, os empates fazem parte da história do xadrez e muitas vezes deixam os eventos com credibilidade duvidosa – uma vez que é comum que entre jogadores de grande qualidade técnica e por vezes amigos que ocorram empates sem mesmo jogarem de verdade, numa clara demonstração de covardia e desrespeito aos demais participantes. Só que não satisfeito com esta endemia mundial o Bobby Fischer resolveu tomar uma atitude e o que se viu foi o sucesso iminente com a aceitação imediata de toda a classe enxadrística internacional.

No entanto, por detrás de toda esta organização foi montada uma estrutura de grande e respeitada com o apoio fundamental de importantes segmentos – como o Departamento Municipal de Desporto, os hotéis Livramento, Palace e Real, a joalheria Sian, Vinícola Almadén e o setor de lazer do Serviço Social da Indústria.

Não era pra menos, pois estavam escalados para esta jornada da ginástica da inteligência – o que existe de melhor no gênero disponível aqui na fronteira, exterior e no Rio Grande do Sul – tais como jogadores de Montevidéu, Buenos Aires na Argentina, dirigente da Liga Gaúcha de Xadrez, do clube de xadrez de Passo Fundo e o representante oficial da Associação Santanense de Judô, Airton Costa Leites que está diversificando suas atividades esportivas entre seu ofício de instrutor na academia e jogador de xadrez.

NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA: Por sinal – transcorridos sete anos destes grandes momentos apoteóticos do xadrez romântico, no final da tarde de ontem o telefone do BFXC tocou e lá na outra ponta imagine quem era; ele, o dito cujo. O amigo enxadrista de Passo Fundo que gosta de sentar no colo do Wanderlei Cardoso. JUREMIR que sairia do Brasil rumo à Europa para dar prosseguimento aos seus estudos através de intercâmbios culturais estava de volta à sua amada pátria. Horas e horas a fio conversaram ele e o jornalista Pedro Nicola (presidente do BFXC) matando a saudades, rindo do ocorrido e prometendo um novo encontro para breve, quiçá em dezembro, quem sabe – ninguém duvida. Hoje JUREMIR SOUZA está residindo em Santo André (SP), mas uma coisa ele deixou bem claro… Se porventura vier jogar outro torneio, não é com o Wanderlei Cardoso seu maior anseio de encontro, mas com o mestre FIDE uruguaio José Riverol que lhe aplicou um tático que até hoje é motivo de seus pesadelos. Riverol ofereceu o famoso peão envenenado que prontamente JUREMIR SOUZA comeu, bem, e daí qualquer bom enxadrista sabe qual o desfecho desta história – um massacre iminente se desencadeia. Desde então JUREMIR vem estudando esta partida e quer devolver ao amigo uruguaio e boa gente Riverol esta derrota com juros e correção monetária.

_____________________________________________________________________________________________________________________

ARQUIVO DE FOTOS:

Slide3Slide5Slide6Slide7Slide8Slide9Slide10Slide11Slide13Slide14Slide15Slide16Slide17Slide18Slide19Slide20Slide21Slide22Slide23Slide25Slide26Slide27Slide28Slide29Slide30Slide31Slide32Slide33Slide34Slide35Slide37Slide38Slide39Slide40Slide41Slide42Slide43Slide44Slide45Slide46Slide47Slide49Slide50Slide51Slide52Slide53Slide54Slide55Slide56Slide57