Foi assim, entre clima de desconfianças, conversas descontraídas e relógios batendo, que surgiu um novo ambiente para a seleta e privilegiada elite do esporte/ciência e ginástica da inteligência do xadrez capilé: menos solene, mais humano, com cheiro de cozinha e barulho de gente viva. O tabuleiro deixou de ser altar e virou mesa compartilhada.
A grande atração da noite foi Norberto Schmidt, presença que impôs respeito sem tirar o sorriso do rosto. Jogava como quem conta causos: firme, preciso, mas sempre deixando uma brecha para a prosa — e para o improviso.
No fim, ninguém sabia dizer se tinha sido torneio, encontro ou travessura. Talvez tudo isso junto. O certo é que, naquela noite, o xadrez voltou a circular pela cidade como antigamente: sem frescura, com gosto de hambúrguer e memória.
Sim — havia brechas no tabuleiro.
Brechas para o improviso, para as capivaradas inevitáveis que, certamente, o severo mestre Raykon Shizuka Taketa abominaria com um muxoxo silencioso e um ajuste nos óculos invisíveis da memória.
Mas o xadrez é bicho vivo.
E as brechas, essas, foram logo ocupadas pelo par de bispos, deslizando em diagonal como quem sabe onde pisa, até que veio o golpe letal: a torre cravada na sétima, dessas que não pedem licença nem desculpa. Lance seco, definitivo, com gosto de mate anunciado.
Assim a noite passou.
Houve disputas, risadas contidas, relógios apressados e posições absurdas que, por algum milagre, se sustentavam. E todos — todos — estavam mais faceiros que lambari em açude, felizes não pela perfeição, mas pela partilha.
No fim, não houve taça nem hino.
Venceu o xadrez.
Porque quando o jogo encontra mesa, gente e memória, ele cumpre sua função maior: seguir jogando, apesar de tudo.
